A tecnologia tem sido uma fantástica ferramenta para registrar a história de forma, digamos, quase simultânea.
Inclusive no cinema _ onde é necessário produção, escolha de elenco, trilha sonora, lançamento, distribuição etc... ainda mais quando os roteiros transcrevem mais de um país como locação ou estrelas de peso hollywoodiano os protagonizam.
Pouco tempo depois de terem feito pit-stop nas salas de cinema e ainda com a vexaminosa invasão dos EUA ao Iraque em curso, duas películas chegam às locadoras: "Leões e cordeiros" (dir. Robert Redford) e "No vale das sombras" (dir. Paul Haggis).
Invadem as prateleiras sem a aura de blockbusters.
São bons filmes, o segundo melhor que o primeiro, mas nada que se compare a obras-primas como "Natural born killers" (Kubrick), "Apocalypse now" (Coppola) e o ótimo “O resgate do soldado Ryan” (Spielberg).
E ainda pelo fato que blockbuster de verdade é saber que quatro mil americanos já morreram devido à inconseqüência do governo Bush em cinco anos de ação militar no Iraque.
Com um número como esse _ aproximadamente 800 guerreiros yankees da mais cara e bem treinada força militar do planeta, mortos por ano, algo como 2,19 corpos _ made in USA _ aniquilados p/dia _ qualquer filme parece conto da carochinha.
Isto sem falar nos neo-veteranos feridos em seus corações e mentes ou no ainda incomensurável montante de civis iraquianos trucidados.
Sabemos, a realidade trespassou a ficção.
Até por estes fatos, assistir a estes filmes _ para quem é fascinado por enquadramentos sobre política de império, nova ordem mundial e, lamentavelmente, terrorismo como única auto-crítica neste cenário _ é obrigatório.
"Leões e cordeiros" traz a marca do bom-moço Redford. Ele é um dos responsáveis pela existência do festival de cinema independente mais importante do mundo hoje _ Sundance. E foi protagonista nas telas, junto com Dustin Hoffman, de "Todos os homens do presidente", mais um patético exercício político do partido conservador americano _ o escândalo "Watergate". Ou seja, sua persona é um misto inseparável de interpretação e cidadania.
"Leões e cordeiros" faz uma intrigante reflexão, no melhor de seus três scripts paralelos, sobre a benevolência da mídia da América do Norte. Da postura acrítica, mesmo entre grandes jornalistas, primeiro, sobre o porque da invasão do país de Saddam Hussein.
Segundo: a quanto esta ação militar se assemelha ao cavar de um poço que, quanto mais esforço se empenha, mais distante parece estar de algum fundo.
Redford atua como um professor universitário, ex-combatente no Vietnã _ "eu fui convocado" _ pontua seu personagem, e sua interpretação está calcada no diálogo com seus alunos quanto à contemporaneidade.
O galã Tom Cruise interpreta um senador de escrúpulo integralmente conservador.
E a laureadíssima Meryl Streep _ sempre arrebatadora _ a jornalista que se vê entre manter seu status sócio-profissional, "aos 57 anos de idade" _ conforme a admoestação de seu editor, e mais uma vez incorporar a figura de vaca de presépio midiática.
Ela se vê frente a um novo estratagema bélico que o senador Cruise tenta lhe vender como notícia para uma virada da opinião pública, frente ao fracasso do que está acontecendo dentro e fora das telas.
Veja o filme e escolha quem são ou se há leões e cordeiros neste piquenique devastador do Império nas reminiscências dos Jardins da Babilônia.
terça-feira, 25 de março de 2008
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