"No vale das sombras" de Paul Haggis é um filme barra pesada.
É baseado em fatos reais. No DVD há entrevista com alguns atores do filme.
Alguns destes atores estiveram em ação no país do enforcado Saddam Hussein. Figura nefasta, contudo, ex-aliado americano quando a estes interessou marcar presença geográfica contra os aiatolás.
Não é fácil pensar no Iraque tripudiado por numa América do Norte que, como diz com rara sabedoria o lingüista e ativista político norte-americano Noam Chomsky: "... para fora de suas fronteiras, os EUA negam tudo aquilo que tanto apregoam internamente". Ou quem pode se intitular democrata ao defender tortura como forma legítima de interrogatório?
O canadense Haggis dirigiu a película "Crash _ no limite", melhor filme e roteiro original no Oscar 2006. Ele foi criticado por muitos, para mim, por ter feito um filme com verniz humano. Sim, para muitos, ficou careta fazer ou tentar arte com foco reflexivo. Quanto mais cinema. Quanto mais vindo de Hollywood. Me põe fora dessa.
"No vale das sombras" arrepia. Tommy Lee Jones é um Ator com maiúscula. Aqui ele tem um roteiro para atuar, protagonizar, enchendo a tela de humanidade, contradição, incorporando um veterano que trouxe para dentro de sua família a aspereza de um quartel. Seus filhos tornam-se recrutas em duas investidas inúteis dos americanos pelo mundo. Na casa do sargento aposentado, não ir à guerra é sinal de fraqueza. O segundo filho, que vai ao Iraque, some na volta aos EUA. O pai enfrenta a corte marcial de sua consciência.
Abrilhantando o time, papel pequeno, Susan Sarandon esbanja como a esposa de Jones. Lágrimas.
Haggis mergulha na personalidade atormentada de jovens soldados depois de 18 meses de atuação em Bagdá e arredores. Flagra o olhar autoritário, inconseqüente do invasor, dissecando a ritualística que transforma homens em predadores de outros seres humanos. Crianças são atropeladas por carros blindados, cidadãos são estorricados dentro de um ônibus, iraquianos feridos tem seus ferimentos vasculhados pelos dedos dos heróis americanos, a ponto de um deles receber o apelido de "Doc" (doutor). A insânia do cotidiano da guerra não abandona os recrutas, mesmo ao regressarem a seu país.
"Não devíamos ter ido para aquele monte de poeira. Uma bomba atômica teria resolvido tudo", sintetiza sua experiência um dos colegas do filho desaparecido a um estupefato Jones.
"Leõs e cordeiros" e "No vale das sombras" estão nas locadoras. Neste momento, neste exato momento, milhares de iraquianos são coadjuvantes da falta de um cotidiano. Onde estará o próximo corpo de um conterrâneo a ser usado como estopim de bomba a serviço de radicais estúpidos? De onde virá o próximo tiro de uma arma das tropas invasoras?
E dos três candidatos à presidência dos EUA, apenas um não apoiou a invasão ao Iraque.
Livro: "11 de setembro" (autor: Noam Chomsky / edt.: Bertrand Brasil)
terça-feira, 25 de março de 2008
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