sexta-feira, 11 de abril de 2008
Marcelo Madureira: tatibitate na capa; Pedro Cardoso: falante para surdos 2
Sou, de certa forma, um irresponsável com o teatro. Ao lado dum casal amigo, eu e Sra. Pri estamos adiando a presença na aplaudidíssima "As centenárias" (Andréa Beltrão/Marieta Severo).
Certa vez, quando eu trabalhava no Jornal do Brasil, Macksen Luiz, pra mim o melhor crítico de teatro desta terra, ponderou: "É uma questão cultural. No caso de pessoas como você, realmente, de hábito". Valeu mestre.
Pois bem. Eu, mesmo de forma bissexta, ao contrário da turma do Casseta, não visto a camisa do "Vá ao teatro, mas não me chame". E devido à entrevista do Pedro Cardoso no último domingo, realmente, vou lamentar se não conseguir algum dia assistir a "O autofalante".
Só assisti ao Pedro atuando na TV, num filme brazuca capenga _ "Redentor", e esbanjando brilhante composição como protagonista de "O que é isso, companheiro?”. Ele está sempre ótimo. Criticamente, diria que um pouco de sua persona artística acaba se repetindo de papel em papel. Não sei se isso é bom, mas Wim Wenders declarou num livro bem interessante _ "Hollywood" _ algo como o "grande ator traz um pouco de si em cada personagem".
Pois bem, o revelado no último domingo eu não conhecia: um artista de visão crítica arguta. Um cidadão que tem o que falar. Mas como ele falou com profundidade, a repercussão, até agora, não foi a merecida. Um certo conteúdo da mídia cultural, da qual faço parte, foi envernizado por celebritismo de quinta e verborragia rasa. É o "autocrítico", penitenciando-se, elogiando o "autofalante".
Na entrevista, ao ser perguntado sobre "...suas referências?", Pedro surpreende. Não cita atores do porte de Paulo Gracindo, Fernanda Montenegro, Pedro Paulo Rangel, etc... Ainda menos diretores _ outra provocação _ que ele minimiza a importância na elaboração cênica, à exceção de _ pelas respostas _ o guru Amir Haddad e o inglês Peter Brook. E vaticina:
"Sou uma geração abaixo de Chico, Caetano... que foi formada por uma outra... Vinicius, Tom... que por sua vez... Pixinguinha, Cartola, Lamartine... Essa cascata que ocupa quase um século de produção cultural extremamente poderosa e que deu ao país uma cara, um caráter, mais que a literatura, o cinema e o teatro." Literalmente, fecha aspas.
Essa sim é uma declaração contundente, afiada, provocadora. Mas, para começar, ela não é engraçadinha...
Vamos ao artista Pedro. Eu não concordo com ele. A meu ver, apenas por ilustração, entre outros, Machado/Lispector na literatura, Autran/Antunes no teatro, sem mencionar os Pederneiras na dança ou um Iberê nas artes plásticas. Isto sem mencionar o Pelé, pra mim, um esteta. Alguém que elevou nosso esporte ao status de arte. Edson Arantes possui a envergadura estética de um Nijinski.
Lamentavelmente, perdoem-me a indelicadeza, não incluo um cineasta pátrio sequer com obra à altura dos que citei acima. Mas gosto muito do cinema nacional e nos últimos anos assisti a preciosidades como "Quase dois irmãos" (Lucia Murat), "Tropa de elite" (José Padilha), "O último dia" (Walter Salles), "Lavoura arcaica" (Luiz Fernando Carvalho), etc... só para não ficar citando clássicos como "Assalto ao trem pagador" (Roberto Farias) ou o emblemático "Limite" (de 1929 _ Mário Peixoto).
Gostaria e muito de ouvir uma possível repercussão sobre o raciocínio de Pedro Cardoso. Mas dentro da pauta de uma certa mídia cultural contemporânea, a falta de um escândalo, segredo de alcova ou _ PALAVRÃO _ matérias assim não fedem ou cheiram.
CIMENT, Michel. Hollywood: Entrevistas. São Paulo: Brasiliense, 1988.
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Um comentário:
O Pedro Cardoso mostrou lucidez rara!
Poucas coisas são mais cansativas que o cinema do Glauber...
quanto mais longe da Terra, quanto mais longe de Deus
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