Sicko _ $O$ Saúde
Assisti ao filme. Gosto de Michael Moore e Sra. Pri ainda mais que eu. Resultado: fomos ao cinema _ algo que anda me desgastando (outra hora falo da falta de polidez em salas escuras).
Michael Francis Moore, 54 anos, esse é definitivamente meu ponto de vista, é uma daquelas figuras absolutamente parciais nesta desordenada aldeia global. Por isso mesmo fundamental de ser visto.
Não entro no mérito de discussões como a do suposto distanciamento que, para alguns, é imposto pela estética documental.
Moore dirige documentários como Spielberg faz cinema: ele busca a cumplicidade da audiência. Para o bem e para o mal.
Considero seus dois filmes anteriores ótimos. Obrigatórios.
Na entrega do Oscar 2002, inflamado, gosto de gente assim _ hehehehe, ele foi desrespeitado em seu direito. Ao receber a estatueta, esbravejando contra Bush, é natural, ganhou vaias e aplausos. Mas o âncora da festa, o ator Steve Martin, foi pra mim de rara deselegância. Declarou, pós-saída do palco de Moore, que “ele estaria entrando numa limusine (referindo-se a seu peso) empurrado pelos Simpsons”. É Mr.Martin, quatro mil soldados americanos e aproximadamente 100 mil iraquianos depois, essa piada ficou grotesca. Provavelmente todos eles caberiam nesta limu sem a ajuda de Homer and family. Voltaram ao pó.
O diretor, como sempre, debocha desta figura canhestra que hoje ocupa a presidência dos EUA. E também nos manipula com suas idéias, travestidas sob o formato de documentário, a ponto de marejar os olhos.
Há um golaço, mesmo que por motivo infeliz, em sua destrutiva observação sobre o sistema privado de saúde americano: ele ajuda financeiramente o titular do site que mais o critica em seu país. E o motivo é saúde. Só vendo para crer.
Contudo, dos três filmes deste autor, este foi o que menos gostei.
Um dos personagens de "Sicko" é um americano que não consegue a aprovação por parte de seu plano de saúde para um tratamento médico necessário. Este senhor envia a seu plano a informação que MM está fazendo um filme que retrata a lamentável relação entre segurados e seus planos.
Resultado: no dia seguinte, o cidadão é atendido por seu plano.
Bem, o ápice da película registra Moore e cidadãos americanos que trabalharam no resgate a vítimas do 11 de Setembro, e por causa deste trabalho voluntário tornaram-se portadores de doenças, chegando à Cuba, em busca de atendimento médico não conseguido nos EUA. Isso, depois de também não conseguirem entrar nas instalações médicas, segundo as forças armadas do Tio Sam, “de alto nível”, desta vergonha global que é a prisão de Guantânamo (há um filme nas locadoras _ “Caminho para Guantânamo” _ de virar o estômago. Espetacular!!!).
Bem, aí reside a questão:
Se um plano de saúde atendeu ao cidadão americano por saber da produção cinematográfica de MM, o mesmo pode se esperar do atendimento, rápido, efetivo e do mais alto nível conseguido pelos personagens americanos em Havana.
Desculpa Mr. Moore, mas esta contradição não pode passar em branco.
O diretor mostra serviços públicos de saúde _ segundo suas lentes, “exemplares” _ em outros países como França, Inglaterra e Canadá.
Logo Canadá Moore? O país cuja arquitetura de saúde é destroçada em “Invasões bárbaras” do também provocante Denys Arcand? Quando o protagonista, um professor universitário de esquerda, apocalíptico, diz claramente ao filho rico, integrado: “Deixe-me num dos corredores de nossos hospitais. Fui defensor desta reforma na área de saúde do nosso país”.
E o que dizer do arrebatador “Trilogia suja de Havana”? O livro engenhoso de Pedro Juan Gutierrez, além de histórias, narrativas primorosas, tem seu maior mérito ao desconstruir qualquer imagem idílica do que restou da memorável revolução cubana.
Eu poderia dizer que Gutierrez escreve com a maestria de quem descasca uma parede com as unhas. Mas pior do que isso, diga-se de passagem, o embargo americano à ilha é aviltante, o escritor faz barba, cabelo e bigode no corpo social do país globalizado por Fidel Castro.
Então, fica a pergunta: será que Michael Moore está prostrado como autor, tendo sido inoculado pelo clichê? Espécie de dengue criativa?
Na locadora:
Michael Moore
2004 - Fahrenheit 11 de setembro (Fahrenheit 9/11)
2002 - Tiros em Columbine (Bowling for Columbine)
Deny Arcand
2003 _ Invasões Bárbaras
Na estante:
Trilogia suja de Havana (Pedro Juan Gutierrez)
quinta-feira, 3 de abril de 2008
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Um comentário:
Não tenho paciência para o Moore, não. Como documentarista, é uma piada. Mas agrada à 'esquerda festiva de Ipanema' com seu muito espetáculo e seu pouco rigor
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