quarta-feira, 28 de maio de 2008

Oriente Médio: cansaço dos terrores; entusiasmo com literatos


Mera, mera coincidência.
Por mais que alguns afirmem que esta não exista.
Li, seguidamente, dois livros com mais de uma década de diferença de lançamento no Brasil, de dois grandes autores, de dois lados duma mesma (?) área: Oriente Médio.
Não fosse o assunto geografia e sim gramática, esta parte do planeta de fronteiras frágeis, indefinidas, poderia ser traduzida em reticências...
E estas publicações só reforçam a idéia de que a paz ainda está muito distante _ miragem como ponto final frente a tanto ódio.

"A caixa-preta", do israelense Amós Oz, e "Eu vi Ramallah", do palestino Mourid Barghouti, são contundentes e emocionam. O primeiro foi editado por aqui em 1993 e o segundo em 2006.

Amós é apontado por boa parte da crítica literária mundial como o maior escritor israelense vivo. Nasceu Krausler, em 1939, Jerusalém, filho de uma mãe que se suicidou quando ele tinha 12 anos. Aos 15 vai viver num kibutz e adota o sobrenome Oz que, do hebraico, pode ser traduzido como forte/corajoso.
O escritor lutou tanto na "Guerra dos seis dias" quanto na do "Yom Kippur" e é um dos fundadores do movimento "Paz agora".
Amós foi amigo do Prêmio Nobel (1988) Naguib Mahfouz, escritor egípcio (1911-2006) cuja prosa é apontada como renovadora da literatura árabe.

Mourid Barghouti ganhou a Medalha Naguib Mahfouz de Literatura por "Eu vi Ramallah". É poeta e tem mais de 12 livros publicados. Ele estudava literatura inglesa no Cairo, estava no último ano, último mês de aula, fazendo sua ante-penúltima prova, quando eclodiu a "Guerra dos seis dias".
Barghouti não conseguiu voltar para sua cidade natal. O exército israelense só concedeu esta licença aos idosos e não aos mais jovens. Mourid tornou-se um "nazihin" (expatriado) e seu livro refaz o trajeto de vida até o dia que se vê novamente diante da passagem que cruzou várias vezes para sair e voltar para casa _ em Ramallah.
Só que três décadas depois _ uma ponte também existencial entre 1966 a 1996.

Ganhei este livro de uma amiga, Patrícia Duarte, e por causa dele daqui a pouco vou mergulhar no clássico "Orientalismo" do Edward W. Said. Intelectual como poucos no século XX, investigador deste cenário labiríntico chamado Oriente Médio (para o autor nada mais que "uma invenção ocidental"), Said assina o prefácio de "Eu vi Ramallah".

Barghouti escreve seu livro de memórias com lirismo encharcado por dor. Deixou de enterrar parentes, perdeu de vista companheiros de adolescência, passou a viver um exílio eterno. "... Após mais quantos 30 anos retornarão os que nunca retornaram?... Nossos mortos ainda estão nos cemitérios dos outros, e nossos vivos, dependurados nas fronteiras dos outros."

Oz constrói sua novela, usando o recurso da troca de cartas. Sua narrativa, 95% do tempo, autopsia seus dois protagonistas e apresenta seu entorno afetivo desta forma. É texto literário do mais alto calibre. Rico, desconcertante, atordoador como a imagem escolhida para batizar a obra e decupar uma relação esgotada, permeada por amargura: "... Como depois de um desastre de avião, sentamos e analisamos, por correspondência, o conteúdo da caixa-preta".

O autor forjado num kibutz, em entrevista à revista Veja, em 2001, afirmou:
"... nunca usei meus romances para transmitir uma idéia política". Como leitor, tenho esse direito, discordo. Certa vez, perguntado porque havia decidido debruçar-se sobre um relacionamento amoroso em "Um homem, uma mulher, uma noite", depois de filmes como "Z" e "Missing", o diretor grego-franco Costa-Gavras, respondeu: "Existem poucas coisas tão políticas quanto o relacionamento de um homem com uma mulher".

Por isso, assim como Barghouti, Oz não deixa de tocar na própria ferida com reflexos comportamentais auto-críticos.
Entre outros pontos, ele perpassa o preconceito dentro do povo israelense pelos co-sanguíneos oriundos do leste, fincados nas cercanias africanas, com fenótipo próximo a cor, estatura, de um árabe. E ainda descreve com rara impiedade o ataque truculento a uma casamata com egípcios, já que um general aposentado é também a central figura masculina do livro.

Nazahin duas vezes. Barghouti descreve sua impossibilidade em voltar para casa. Em não ter tido a chance de celebrar o primeiro bacharelado da família. "Eu tinha o diploma, mas não tinha uma parede onde pendurá-lo". Permanece no Cairo, casa-se com uma escritora e professora egípcia. Eles têm seu primeiro filho, mas ele não celebra o aniversário de um ano de Tamim. Escreve:
"Não fizera nenhuma ação contrária à visita de Sadat (presidente egípcio) a Israel...". Foi deportado novamente. "... conseqüência de uma falsa denúncia _ como se descobriu anos depois _, feita por um colega nosso da União dos Escritores Palestinos!".

Livros imperdíveis e depois vou desabafar o que penso sobre o tal Oriente Médio.






























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