quarta-feira, 20 de agosto de 2008
Eu, Caymmi e a Alerj às 2h45 da manhã
Na última madrugada de sábado para domingo vivi uma experiência curiosa, catalisadora: velei sozinho, durante uns 10 minutos, o corpo desta entidade da cultura brasileira chamado Dorival Caymmi.
Velório, enterro, é sempre triste. No caso de personas públicas _ invariavelmente _ lotados. Um dos mais simbólicos que presenciei foi do fantástico João Nogueira e na memória ainda posso ouvir o surdo seco que acompanhou o cortejo entre a capela e o local onde o caixão foi colocado. Rito quando se despede dum sambista. João foi dos maiores.
Pois tenho o arrependimento, até por conhecer familiares, de não ter ido ao velório e enterro do também virtuoso Mário Lago. Voltava para casa de madrugada, não passei no velório, e na hora do enterro propriamente dito, não pude estar lá para abraçar Mariozinho e demais amigos.
Pois bem, foi nesta que resolvi passar na Alerj, em plena Cinelândia, para encontrar algum familiar de Dorival, especialmente minha diva Nana, para abraçar. Eu vinha do casamento de um primo, lá depois de Vargem Grande, num sítio maravilhoso, a bordo de um táxi. Pedi que ao invés do endereço em Botafogo, ele desse uma parada na Cinelândia. Desci do carro de terno, gorro na cabeça, álcool nas veias e pensando nalguma forma de evitar que a emoção transbordasse retinas abaixo, como na manhã de sábado, quando liguei o computador e vi a notícia que um dos meus ícones tinha se tornado imortal.
Caymmi sim, para mim, lembra um painho baiano. Mesmo sendo o Rio a cidade pela qual ele assumisse maior paixão. Mas ele era, é e será, antes de tudo, um brasileiro. Desses raros que nos transcendem. Pois nos traduziu com afinada elegância e serenidade.
Eu o entrevistei uma vez por telefone, quando crítico de música do JB, em 1995/96 e pude estar a seu lado nos camarins do Canecão. Um de seus filhos, o também genial Dori, apresentou-se no Heineken Concerts daquele ano. E ele participou do espetáculo. Como poucas pessoas que conheci entre anônimos, familiares, personalidades (não confundir com celebridades), etc... Dorival era um homem cuja figura etérea sempre fascinava quem dele se aproximava.
Acho que foi Stella, sua neta, figura querida, que me apresentou no Heineken: "Vô, este é Braulio Neto, crítico do JB"
Eu: "Boa noite mestre. É uma honra, um prazer... faltam palavras para descrever a emoção em estar ao sue lado"
O mestre: "Seja bem vindo. Fique à vontade."
Eu: "A alegria é toda minha" _ disse tímido, tendo como resposta o sorriso largo, silencioso, do maior budista que já conheci nestes 43 anos de vida.
Ele: "Jornal do Brasil? Ah... Você não é do tempo meu filho em que o JB ficava na Avenida Rio Branco (nesta época o jornal ainda estava ao lado da rodoviária).
E arrematou:
"A Rio Branco, ah... eu fui amasiado com a Rio Branco".
Depois nunca mais o entrevistei, mesmo com um convite do Danilo para um papo informal que acabei por não agendar. O vi em algum outro espaço público, coisa rara, anos atrás. E desde sempre suas canções chamando à sensibilidade como vento...
Ironia do destino, no último sábado, lá estava na Rio Branco. Um dos responsáveis pela segurança da Alerj, educado, entendeu que eu desejava muito abraçar algum familiar e me despedir do homem simples, lindo, sangue nobre brasileiro, aquela hora da madruga. E disse, acelerando meu batimento cardíaco:"A família foi descansar faz uns 30 minutos. Eu abro para o senhor entrar."
Dispensei o táxi, entrei na Alerj. Ninguém mais no salão de pé direito alto e muito mármore. Lágrimas nos olhos, sozinho, Caymmi lindo a minha frente de branco, comecei a rezar para dentro, entoando "Canoeiro". Sereno, cabelos de algodão, moreno, terço entre as mãos, a bandeira da Mangueira e a bandeira do Brasil a seus pés _ este, um pavilhão que ali fazia sentido, em tempos de uma Alerj que precisa ser defumada devido ao rastro de mais um Álvaro Lins.
Caymmi com sua música, sua arte em saber viver, sua sabedoria para traduzir o simples com percepção de ourives, nos toca. Não por sua perda. Ele viveu 94 anos, embelezou o mundo _ além do pranto inevitável, é também hora de celebrar sua vida, seus passos e uma obra ampla como a orla desta terra que ele tanto amava.
Que Caymmi ilumine a brasilidade fosca, neste chão onde somos órfãos de cidadania, de brisas de paz, de afago... menos de saudade.
Olhai por nós!
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Um comentário:
Querido Braulio,
Conhecendo sua sensibilidade em relação as questoes que envolvem a sra. morte, fiquei muito emocionada com seu texto, sua experiência. E até com uma pontinha de inveja. Inveja boa, claro.
Uma das bandeiras que levantei nessa vida, foi a da eduação para a morte... e fico feliz quando vejo relatos como esse, encontros como esse, traduzidos em palavras e, principalmente, indo a domínio público.
Que definitivamente, a palavra não se cale.
Adriana Thomaz
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